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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A ESTRANHA PASSAGEIRA


 - O senhor sabe? É a primeira vez que eu viajo de avião. Estou com zero hora de vôo - e riu nervosinha, coitada.

     Depois me pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me achava muito calmo e isto iria fazer-lhe bem. Lá se ia a oportunidade de ler o romance policial que eu comprara no aeroporto, para me distrair na viagem.  Suspirei e fiz o bacano respondendo que estava às suas ordens.

    Madama entrou no avião sobraçando um monte de embrulhos, que segurava desajeitadamente.  Gorda como era, custou a se encaixar na poltrona e arrumar todos aqueles pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e eu tive que realizar essa operação em sua farta cintura.
   Afinal estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros estavam já se divertindo às minhas custas, a zombar do meu embaraço ante as perguntas que aquela senhora me fazia aos berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas. A coisa foi ficando ridícula:
   - Para que esse saquinho aí? - foi a pergunta que fez, num tom de voz que parecia que ela estava no Rio e eu em São Paulo.
   - É para a senhora usar em caso de necessidade - respondi baixinho.
  Tenho certeza de que ninguém ouviu minha resposta, mas todos adivinharam qual foi, porque ela arregalou os olhos e exclamou:
    - Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem banheiro?
   Alguns passageiros riram, outros - por fineza - fingiram ignorar o lamentável equívoco da incômoda passageira de primeira viagem. Mas ela era um azougue (embora com tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de badalar. Olhava para trás, olhava para cima, mexia na poltrona e quase levou um tombo, quando puxou a alavanca e empurrou o encosto com força, caindo para trás e esparramando embrulhos para todos os lados.
    O comandante já esquentara os motores e a aeronave estava parada, esperando ordens para ganhar a pista de decolagem. Percebi que minha vizinha de banco apertava os olhos e lia qualquer coisa. Logo veio a pergunta:
   - Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra ela?
   Expliquei que emergência não era ninguém, a porta é que era de emergência, isto é, em caso de necessidade, saía-se por ela.
   Madama sossegou e os outros passageiros já estavam conformados com o término do "show". Mesmo os que mais de divertiam com ele resolveram abrir os jornais, revistas ou se acomodarem para tirar uma pestana durante a viagem.
   Foi quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela (ela pedira para ficar do lado da janela para ver a paisagem) e gritou:
   - Puxa vida!!!
   Todos olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para a janela e disse:
   - Olha lá embaixo.
   Eu olhei. E ela acrescentou: - Como nós estamos voando alto, moço. Olha só... o pessoal lá embaixo até parece formiga.
   Suspirei e lasquei:
  - Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda não levantou vôo.

                                                                          Stanislaw Ponte Preta

sexta-feira, 26 de junho de 2015

CONVERSA DE BOTEQUIM - Fernanda Sabino


— ESSA rainha da Inglaterra vai acabar entrando pelo cano.
— Por quê?
— Vir no Brasil uma hora dessas? Pau comendo solto por aí...
— Tem polícia pra proteger ela, que é que há?
— Polícia? A polícia mesmo é que está baixando o pau, armando bochincho...
— Psiu, fala baixo, crioulo. Tá querendo ir em cana? Meu chapa! Solta mais uma,
bem gelada!
— Vi o retrato dela na capa duma revista: até que é uma coroa bem apanhada.
Nós vamos tomar mais uma?
— Vamos. Te agüenta aí que quem paga sou eu. Hoje estou com o tutu.
— O rei também vem?
— Que rei?
— Marido da rainha.
— Tu é mesmo crioulo doido: o marido dela não é rei, é príncipe.
— Quem te disse isso?
— Vai por mim.
— Essa não! Marido de rainha só pode ser rei. Príncipe é filho.
— Pois o dela é príncipe. Deixa pra lá, tu não entende disso: é coisa de inglês.
— Um cara aí me disse que ela vai inaugurar a ponte Rio—Niterói.
— Só se for nadando: a ponte ainda nem começou!
— Diz também que ela quer ver o Pelé jogar.
— Cariocas e paulistas. Eu tou nessa boca.
— A gente devia ter uma também, até que seria bacana.
— Uma o quê?
— Uma rainha.
— Tu tá com essa rainha na cabeça, que é que há?
— Por que é que não pode ter?
— Porque aqui não é reinado, é presidência, só por isso. Essa já não tá tão gelada.
— Uma rainha era capaz de consertar essa joça. Pra te falar a verdade... Posso
falar a verdade?
— Pode. Mas fala baixo, crioulo, que não tou pra entrar em fria. Olha o doutor aí
na outra mesa ouvindo a gente. Acaba essa e vamos pedir outra mais gelada.
— E daí? Tou falando o que todo mundo sabe: que esse país tá uma joça. E tá
mesmo.
— Pronto, começou a ignorância. Continua assim, que eu vou puxando.
— Só uma rainha pra dar jeito nessa gente, botar respeito. Enquadrar essa polícia,
esses milicos.
— Com essa eu me mando. Garotão! Suspende a brama, traz a nota! Tu ainda vai
se dar mal, crioulo.
— Pera aí! Não tou falando nada demais. Só tou falando que uma rainha mesmo
de verdade ficava no trono até morrer, todo mundo respeitava ela, não tinha esse
negócio de toda hora tirar o presidente e botar outro. Tou certo ou não tou?
— Tu tá é no fogo, olha aí: entornou a lourinha.
— No tempo do Getúlio não tinha dessas coisas: Getúlio era feito uma rainha.
— Não tinha? E o fim que ele teve? Pára com essa conversa de comunista,
crioulo, que tu ainda vai ver o sol nascer quadrado. A gente já não tivemos rainha?
Princesa Isabel, Pedro II, essas coisas? E deu certo? Me diga se deu certo.
— Pede outra cerveja pra gente chulear a conversa.
— Então muda de assunto. Pára de falar nessa rainha, que já tá enchendo.
— Então no que é que a gente vai falar?
— Sei lá. Melhor ficar calado do que ficar falando besteira.
— Mas tu concorda que nem conversa boa a gente pode ter mais.
— Ah, isso eu concordo. Olha aí, essa tá que é uma beleza de gelada.

Fernanda Sabino

sexta-feira, 5 de junho de 2015

RELACIONAMENTOS




Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida.

Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah, terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo...
- Cinco anos.... que pena... acabou...
- é... não deu certo...

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.

Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.

Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro. Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.

E às vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate... se joga... se não bate... mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití. Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar... ou não.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto.

Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta. Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice-versa. Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão. Nascemos sós. Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado. E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.

Tem gente que pula de um romance para o outro. Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói. Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração... Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse... A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.

Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta. Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar. Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... ou se apaixonar... ou se culpar...

Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ????

Arnaldo Jabor

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

FELICIDADE REALISTA


      De norte a sul, de leste a oeste, todo mundo quer ser feliz. Não é tarefa das mais fáceis. A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. 

     Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica, a bolsa Louis Vitton e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. 

     É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Por que só podemos ser felizes formando um par, e não como ímpares? Ter um parceiro constante não é sinônimo de felicidade, a não ser que seja a felicidade de estar correspondendo às expectativas da sociedade, mas isso é outro assunto. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com três parceiros, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. 

     Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. 

     Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um game onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.

Martha Medeiros

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ARMARINHO DA PONTE


Era a década de setenta. Shows ao vivo com os cantores em evidência só existiam mesmo nos bairros mais nobres do Rio de Janeiro, embora os sublimes resquícios da bossa-nova ainda permitissem a ocorrência dos encontros informais movidos a um belo piano, violões e baixos acústicos regados a uísque do bom, um caviarzinho e outros afins. Nas regiões suburbanas, num boteco ou num fundinho de quintal, aquele sete-cordas de lei, cavaquinho, tamborim, pandeiro e às vezes um surdão para cadenciar o showzinho doméstico sempre com algumas mulatas embevecendo os sambistas e simpatizantes.

Era o tempo dos videoteipes, entretanto as rádios em AM eram eficazes na cobertura dos eventos principalmente das zonas norte e oeste. Por outro lado, o rock brasileiro rolava solto e cada garagem tinha sempre um clone dos Beatles ou Rolling Stones executando versões tropicais que levavam ao delírio as gatinhas e brotos metaforizados pelo som nada metafórico do Roberto e do Erasmo Carlos.

Pois é... estávamos em Marechal Hermes, bairro tradicional suburbano, onde o point cultural chamava-se “ Armarinho da Ponte “ , uma lojinha paralela à linha dos trens, que promovia festivais apresentados por um locutor normalmente da Rádio Nacional, a principal difusora da cultura musical e o show do dia era realizado pelo conjunto The Fevers num palanque armado em frente à passarela subterrânea que ligava os dois lados.

Uma infinidade de pessoas assistia ao espetáculo e a banda atacava com uma música do Jonhy Rivers, It´s to late, enquanto o refrão repetia: “ Já cansei... já cansei... e ninguém cansava, todos dançavam: jovens, idosos, adultos, crianças, à exceção dos Casaizinhos que aproveitavam o ensejo, já que atenção era toda voltada pra a banda, para se beijarem à moda Marilyn Monroe, que enfeitava as telas de cinema com sua glamourosa sedução.

Indivíduos de vários tipos e de várias roupas acotovelavam-se onde quer que pudessem ficar, para cantar em coro, pular e gritar.

Sobre a escadaria, na passarela que dava para a estação de trens, havia um grupo enorme e, de lá, partiu o inusitado: parecia que uma galinha chocadeira voadora sobrevoara a banda, porque pelo menos uma dúzia de ovos caiu como um míssil sobre os componentes do conjunto. Um deles explodiu sob a pancada da baqueta; outro, sobre as cordas da guitarra; mais um, no contrabaixo; outro mais num bemol com sétima para receber um acorde básico, lambuzando os dedos elétricos do tecladista .

Repentinamente, a banda parou de tocar e os últimos acordes soaram a La Hermeto Paschoal, meio dissonânticos e pegajosos pelas claras galináceas que escorriam guitarra abaixo. Fosse na Europa, todos aplaudiriam de pé.

Não demorou muito e, após as risadas, a primeira locução pornofônica explodiu: - Quem foi o filho da puta que jogou esses ovos ? Alguém tomara o microfone de um dos componentes da banda e começou a vociferar desvairadamente. Houve um silêncio fúnebre que se eternizaria, até que a segunda saraivada galinácea acertou em cheio locutor, deslizando-lhe gosmentamente pelos cabelos e caindo-lhe sobre a camisa havaiana, típica da época... aí, a polícia chegou e o oficial – que não contivera um riso disfarçado – ordenou que o pelotão dispersasse a massa com aquele carinho típico do início do famigerado ano de 1964. A porradoterapia rolou solta !

A pancadaria irrompeu e um dos cassetetes acertou a bolsa com os artefatos , expulsando pelo menos um pintinho atemporal que, estupefato com a vida fora da placenta ovípara, tentou voltar para seu útero,mas acabou pisoteado pela massa em debandada.

Hoje, o Armarinho da Ponte – como um setor de conveniências – perdeu o glamour e se restringe apenas, a exemplo das lojas de “tudo por um real “ , a vendas a preços módicos ( desculpem-me o fóssil linguístico ).

No meu silêncio, ainda ouço os Fevers cantando, a la Brasil, o eterno It´s to late do Jonhy Rivers, que eu traduzo perguntando: - Será que é... “tarde demais “ ?


Escritor, poeta, compositor, cantor, produtor musical, artista plástico, professor de literatura e língua portuguesa, ente outras especificações, Luiz Gilberto de Barros está sempre participando de atividades culturais, e mais uma vez, fica entre os finalistas no Concurso Literário Prêmio Moacyr Scliar e Ledo Ivo. Na modalidade de crônicas angaria o 2º lugar com o texto "ARMARINHO DA PONTE" e fica em terceiro colocado na modalidade de contos com a obra "BRINCANDO DE MORRER". O autor é bem eclético e já possui mais de 10.000 trabalhos, à saber:  poesias, crônicas, novelas, músicas, ensaios e contos. Além disso, é Diretor Cultural da Associação Cultural Encontros Musicais, no Rio de Janeiro, sendo  o pela produção e criação dos textos.

Déia Reis

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

FELIZ POR NADA

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.

Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo?

Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. “Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?

A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

TCHOLINHO, O CÃO TRIPÉ

   
 Como aprendemos com os animais, não? Posso dizer que sempre aprendi muito. Um dos maiores aprendizados foi com um cachorro da raça Fox Paulistinha. Um cãozinho sapeca, levado da breca. Com ele descobri o quanto o ser humano é angustiado.
     Tcholinho era fantástico. Namorador que só. Morava em uma casa e logo aprendeu a pular o muro alto para namorar as princesas da vizinhança. Todos no condomínio o conheciam. Era muito amado por alguns e nem tanto por outros. Era um tal de aparecer filhote de poodle com pedigree com focinho de Fox… Um espanto! Tcholinho: ‘O Cyrano do mundo canino’. O fato é que ele fazia sucesso.
     Acontece que Tcholinho se encantou por uma Pastor Belga, mas esqueceu que ela vivia acompanhada. E num belo dia de cio ele invadiu a casa dos gigantes. Ela até gostou, mas o companheiro não! Foi uma briga feia e o Tcholinho se deu bem mal, quase partiu desta para uma melhor. Levou uma mordida na coxa que pegou a veia femural. A coisa foi tão grave que a patinha traseira teve que ser amputada. Ficou uns dias internado e…
     Voltou a ativa. Quer saber se ele se abalou ou ficou triste, deprimido? Pois nem um pouco. Fazia xixi plantando bananeira e rapidamente se acostumou a nova condição e ao novo apelido nem tão romântico: Tripé. Em pouco tempo conseguiu pular o muro novamente e já estava aumentando a população canina do condomínio de novo. Nada disso abalou sua auto estima. Fiquei impressionada. Ele era um cachorro feliz, não ficou amargurando a perda da pata. Simplesmente se reajustou as novas condições. Uma lição e tanto!
     De certa vez tocou a campanhia da casa. A dona do tcholinho abriu a porta e eis que diante dela estava uma moça muito bem vestida e maquiada, com uma poodle no colo. A surpresa: A poodle estava vestida de noiva. A moça começou a falar: “Pois é. Minha cadela era virgem, agora está grávida. Seu cachorro vive rondando lá em casa e outro dia o vi pulando o muro. Ele não dá para confundir, tenho certeza. Agora vai ter que casar”.
     Apesar do espanto de todos da casa resolveram levar na brincadeira. Tcholinho ficou muito contente em ver sua noiva e todos passaram uma tarde muito agradável com o casamento improvisado. Quando a noiva foi embora o pensamento era um só: Tomara que não volte pedindo pensão.

Anna Letícia Diegues


Anna Letícia escreve crônicas para o site "Curta Crônicas" é veterinária, por isso, seu amor ao animais. Para ler mais textos da autora clique nos ícones abaixo:

- Solidão
- Pollyanna
- Na Pista
- Quem Não Te Conhece, Que Te Compre


sábado, 10 de maio de 2014

TODO HOMEM DEVERIA LER



"É melhor você ter uma mulher engraçada do que linda, que sempre te acompanha nas festas, adora uma cerveja, gosta de futebol, prefere andar de chinelo e vestidinho, ou então calça jeans desbotada e camiseta básica, faz academia quando dá, come carne, é simpática, não liga pra grana, só quer uma vida tranqüila e saudável, é desencanada e adora dar risada.


Do que ter uma mulher perfeitinha, que não curte nada, se veste feito um manequim de vitrine, nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a sequência de bíceps e tríceps.

Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa.
Pode ter uns quilinhos a mais, mas é uma ótima companheira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, mas e daí?
Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução. Mas ainda não criaram um remédio pra FUTILIDADE!!”

"E não se esqueça…Mulher bonita demais e melancia grande, ninguém come sozinho!!"

Arnaldo Jabor