"Para tudo neste mundo, não há nada de graça, a não ser o amor de DEUS."
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quarta-feira, 29 de junho de 2016
sexta-feira, 20 de maio de 2016
DE ALMA PARA ALMA
E às vezes esquecemos de ser nós mesmos
quando passamos a querer agradar a outros.
Sentimos falta do que éramos nos deparando
com o que estamos sendo. E quando nos
deparamos com o reflexo no espelho vemos
que é hora de mudar, ser o que queremos,
lutar pelo que nos valerá a pena e priorizar
quem acima de tudo quer o nosso bem.
Os sonhos que valem a pena são os nossos,
as lutas que temos que lutar são as nossas e a
vida que temos que viver é a que nos faz feliz.
Ninguém além de nós mesmos sabe do
que nosso coração precisa, então priorizar a
si mesmo é se fazer feliz todos os dias.
_________________
Yla Fernandes
Esta mensagem foi compartilhada comigo por um grande amigo, Marcos Veiga. Para mim, o Marcola. gente que mora dentro do meu coração. Basta lê-la para ver a maravilha de mensagem e que cai como uma luva em nossas vidas. Senti vontade de espalhá-la para todos os ventos que os passarinhos contem esta boa novidade. A mensagem edificante é do Face "De Alma para Alma". Vale à pena compartilhar. Todo mundo cresce.
Parabéns!
Georgete Reis
segunda-feira, 28 de março de 2016
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
MÁRIO DE ANDRADE
Nascimento:
09/10/1893
Natural:
São Paulo - SP
Morte:
25/02/1945
09/10/1893
Natural:
São Paulo - SP
Morte:
25/02/1945
" Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhece os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões.
Prefiro as quartas-feiras".
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.
(A Costela de Grão Cão - Mário de Andrade)
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A ESTRANHA PASSAGEIRA
- O senhor sabe? É a primeira vez que eu viajo de avião. Estou com zero hora de vôo - e riu nervosinha, coitada.

Depois me pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me achava muito calmo e isto iria fazer-lhe bem. Lá se ia a oportunidade de ler o romance policial que eu comprara no aeroporto, para me distrair na viagem. Suspirei e fiz o bacano respondendo que estava às suas ordens.
Madama entrou no avião sobraçando um monte de embrulhos, que segurava desajeitadamente. Gorda como era, custou a se encaixar na poltrona e arrumar todos aqueles pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e eu tive que realizar essa operação em sua farta cintura.
Afinal estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros estavam já se divertindo às minhas custas, a zombar do meu embaraço ante as perguntas que aquela senhora me fazia aos berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas. A coisa foi ficando ridícula:
- Para que esse saquinho aí? - foi a pergunta que fez, num tom de voz que parecia que ela estava no Rio e eu em São Paulo.
- É para a senhora usar em caso de necessidade - respondi baixinho.
Tenho certeza de que ninguém ouviu minha resposta, mas todos adivinharam qual foi, porque ela arregalou os olhos e exclamou:
- Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem banheiro?
Alguns passageiros riram, outros - por fineza - fingiram ignorar o lamentável equívoco da incômoda passageira de primeira viagem. Mas ela era um azougue (embora com tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de badalar. Olhava para trás, olhava para cima, mexia na poltrona e quase levou um tombo, quando puxou a alavanca e empurrou o encosto com força, caindo para trás e esparramando embrulhos para todos os lados.
O comandante já esquentara os motores e a aeronave estava parada, esperando ordens para ganhar a pista de decolagem. Percebi que minha vizinha de banco apertava os olhos e lia qualquer coisa. Logo veio a pergunta:
- Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra ela?
Expliquei que emergência não era ninguém, a porta é que era de emergência, isto é, em caso de necessidade, saía-se por ela.
Madama sossegou e os outros passageiros já estavam conformados com o término do "show". Mesmo os que mais de divertiam com ele resolveram abrir os jornais, revistas ou se acomodarem para tirar uma pestana durante a viagem.
Foi quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela (ela pedira para ficar do lado da janela para ver a paisagem) e gritou:
- Puxa vida!!!
Todos olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para a janela e disse:
- Olha lá embaixo.
Eu olhei. E ela acrescentou: - Como nós estamos voando alto, moço. Olha só... o pessoal lá embaixo até parece formiga.
Suspirei e lasquei:
- Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda não levantou vôo.
Stanislaw Ponte Preta
terça-feira, 18 de agosto de 2015
O CAJUEIRO
O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.
Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.
No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.
A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.
Foi agora, em setembro. Estava carregado de flores.
Rubem Braga
Melhores Contos
Seleção de Davi Arrigucci Jr.
Global Editora – 11ª edição, 2001.
domingo, 9 de agosto de 2015
INTERVALO DOLOROSO
Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque da quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço e quem é triste não pode esforçar-se.Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o da alma com que esforçar-me.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Cousa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.
Por mais que por mim me embrenhe todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-1as durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
A (minha) vida é como se me batessem com ela.
(Um dos pseudônimos de Fernando Pessoa - Do Livro do Desassossego )
O conheça o site oficial do escritor A Casa Fernando Pessoa (Lisboa).
sexta-feira, 24 de julho de 2015
DOU-ME POR SATISFEITO
"Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre o quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção.
Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo - que não tenho sentimentalidade para aparar -, o papel branco de embrulho de sanduíche, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito."
Bernardo Soares
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
Do livro do Desassossego
quinta-feira, 23 de julho de 2015
LIVRO DO DESASSOSSEGO

"Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas...
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler.
De que me serve reler? O que está ali é outro.
Já não compreendo nada..."
Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares
(Um dos heterônimos de Fernando Pessoa)
terça-feira, 21 de julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
PARA TODOS NÓS DESCERÁ A NOITE E CHEGARÁ A DILIGÊNCIA
"O Coração, se pudesse pensar, pararia."
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo aos que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo aos que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."
Bernardo Soares
Do Livro do Desassossego
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
sexta-feira, 5 de junho de 2015
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
LISTA DE CLÁSSICOS - Parte II -(Indicada pelo Professor André)
- Memórias do Subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski
- Iracema (1865), de José de Alencar
- Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll
- Viagem ao centro da Terra (1866), de Júlio Verne
- Crime e Castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski
- O Idiota (1868-9), de Fiódor Dostoiévski
- Guerra e Paz (1869), de Leon Tolstói
- Alice através do espelho (1871), de Lewis Carroll
- A volta ao mundo em 80 dias (1873), de Júlio Verne
- Senhora (1875), de José de Alencar
- O crime do Padre Amaro (1876), de José Maria Eça de Queirós
- Anna Karenina (1877), de Leon Tolstói
- Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Joaquim Maria Machado de Assis
- A Ilha do Tesouro (1883), de Robert Louis Stevenson
- A morte de Ivan Ilitch (1884), de Leon Tolstói
- As aventuras de Huckleberry Finn (1885), de Mark Twain
- Germinal (1885), de Émile Zola
- O Ateneu (1888), de Raul Pompéia
- Os Maias (1888), de José Maria Eça de Queirós
- O Cortiço (1890), de Aluísio de Azevedo
- O retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde
- Quincas Borba (1891), de Joaquim Maria Machado de Assis
- As aventuras de Sherlock Holmes (1892), de sir Arthur Conan Doyle
- A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells
- Drácula (1897), de Bram Stoker
- A guerra dos mundos (1898), de H. G. Wells
- Dom Casmurro (1899), de Joaquim Maria Machado de Assis
- A cidade e as serras (1901), de José Maria Eça de Queirós
- Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha
- Tarzan (1914), de Edgar Rice Burroughs
- Triste fim e Policarpo Quaresma (1911, folhetim), de Lima Barreto
- Retrato do artista quando jovem (1916), de James Joyce
- Ulisses (1918-21, folhetim), de James Joyce
- A montanha mágica (1924), de Thomas Mann
- O processo (1925), de Franz Kafka
- O grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald
- O Castelo (1926), de Franz Kafka
- Em busca do tempo perdido (1913-27, em sete volumes), de Marcel Proust
- O lobo da estepe (1927), de Hermann Hesse
- O amante de Lady Chatterley (1928), de D. H. Lawrence
- Orlando (1928), de Virginia Woolf
- Macunaíma (1928), de Mário de Andrade
- O quinze (1930), de Rachel de Queiroz
- Reinações de Narizinho (1931), de Monteiro Lobato
- Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley
- Menino de Engenho (1932), de José Lins do Rego
- … E o vento levou (1936), de Margaret Mitchell
- Angústia (1936), de Graciliano Ramos
- Capitães de Areia (1937), de Jorge Amado
- O Hobbit (1937), de J. R. R. Tolkien
- Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos
- Finnegans Wake (1939), de James Joyce
- Por quem os sinos dobram (1940), de Ernest Hemingway
- Xadrez (1942), de Stefan Zweig
terça-feira, 23 de setembro de 2014
LISTA DE CLÁSSICOS - Parte I - (Indicada pelo Professor André)
![]() |
| Clássicos que Você não pode deixar de ler. |
- Ilíada (séc. VIII a. C.), de Homero
- Odisseia (séc. VIII a. C.), de Homero
- As mil e uma noites (850 a.C.), de autor desconhecido
- O asno de ouro (1469), de Apuleio
- Gargântua e Pantagruel (1532-64), de François Rabelais
- Os Lusíadas (1572), de Luiz Vaz de Camões
- Dom Quixote (1605-15), de Miguel de Cervantes Saavedra
- Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe
- As viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift
- Tom Jones (1749), de Henry Fielding
- Cândido (1759), de Voltaire
- Emílio ou da educação (1762), de Jean Jacques Rousseau
- O Castelo de Otranto (1765), de Horace Walpole
- Os Sofrimentos do jovemWerther (1774), de Johann Wolfgang von Goethe
- Os 120 dias de Sodoma (1785), de Marquês de Sade
- Razão e Sensibilidade (1811), de Jane Austen
- Orgulho e Preconceito (1813), de Jane Austen
- Mansfield Park (1814), de Jane Austen
- Emma (1816), de Jane Auten
- Frankenstein (1818), de Mary Wollstonecraft Shelley
- Ivanhoé (1820), de sir Walter Scott
- O último dos moicanos (1826), de James Fenimore Cooper
- O vermelho e o negro (1831), de Stendhal
- O corcunda de Notre-Dame (1831), de Victor Hugo
- Oliver Twist (1833), de Charles Dickens
- Pai Goriot (1834-35), de Honoré de Balzac
- A queda da casa de Usher (1839), de Edgar Allan Poe (apesar de ser um conto, decidi incluí-lo)
- Almas mortas (1842), de Nicolai Gógol
- Ilusões perdidas (1843), de Honoré de Balzac
- Os três mosqueteiros (1844), de Alexandre Dumas
- A moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo
- O conde de Monte Cristo (1845-46), de Alexandre Dumas
- Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë
- O morro dos ventos uivantes (1847), de Emily Brontë
- David Copperfield (1850), de Charles Dickens
- Moby Dick (1851), de Herman Melville
- A cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe
- Walden ou A vida nos bosques (1854), de Henry David Thoreau
- Memórias de um sargento de milícias (1854 e 1855), de Manuel Antônio de Almeida
- Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert
- Grandes Esperanças (1861), de Charles Dickens
- Os miseráveis (1862), de Victor Hugo
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
CAIXEIRO DA TABACARIA
"Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia! Tínhamos esquecido isso, nós todos, nós todos que o conhecíamos do mesmo modo que todos que o não conheceram. Amanhã esquecê-lo-emos melhor. Mas que havia alma, havia, para que se matasse. Paixões? Angústias? Sem dúvida... Mas a mim, como à humanidade inteira, há só a memória de um sorriso parvo por cima de um casaco de mescla, sujo, e desigual nos ombros. É quanto me resta, a mim, de quem tanto sentiu que se matou de sentir, porque, enfim, de outra coisa não se deve matar alguém... Pensei uma vez, ao comprar-lhe cigarros, que encalveceria cedo. Afinal não a teve tempo para encalvecer. É uma das memórias que me restam dele. Que outra me haveria de restar se esta, afinal, não é dele, mas de um pensamento meu?
Tenho subitamente à visão do cadáver, do caixão em que o meteram, da cova, inteiramente alheia, a que o haviam de ter levado. E vejo, de repente, que o caixeiro da tabacaria era, em certo modo, casaco torto e tudo, a humanidade inteira."
Fernando Pessoa
(A Quintessência do Desassossego)
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
FILHAS DO SEGUNDO SEXO - JARDIM
O amor acaba
Como um castelo
De cartas, um viaduto
Só se percebe
No sábado ao se acordar.
Quando tudo silencia,
Na praia ao fim
Da tarde
Ou durante o jantar
Quando se repara
O brilho do anel
Que já não brilha,
O vinco na memória
Que falha, o canto
De Morgana que anuncia:
Todo ser que se move
É uma ilha.
"Me faço poeta para libertar as emoções aprisionadas nas
masmorras da alma, refugiar-me dos meus demônios, contar as mentiras que me
tornam verdadeiro. O jardim é uma tentativa humana de organizar a natureza e
também uma alternativa para organizar e conciliar a metamorfose das emoções.
Mas Jardim também é aquele que me habita, Um pedaço de mim que se aventura
pelos portais onde nunca me aventurei. Meu maior patrimônio são os meus versos,
com eles construo meu jardim."
Ebooks escritos:
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
APRENDER COM TODA A GENTE
"Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo. Em certos momentos muito claros de meditação, como aqueles em que, pelo princípio da tarde, vageio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim. Meu passeio é calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino".
Fernando Pessoa
(A Quintessência do Desassossego)
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
FALSOS ABRAÇOS - 3 º Lugar no PRÊMIO OFF FLIP DE LITERATURA 2012 - POESIAS
Pálpebras cerradas
aprisionam nossos silêncios.
As opiniões são fósforos riscados
e os sentimentos cinzas pelos cantos.
Não há luz: há muito não pagamos a conta.
Cultivamos nossa indiferença
com a calma de um barco
que apodrece no fundo do rio.
Somos ricos em perdas
e pobres em ruídos caseiros.
Marcamos território com miolos de pão
ressecados pela baixa umidade dos olhos.
Não ha anúncios de batalha:
há silêncios e feridos
dos dois lados da muralha.
O tempo nos secou ao sol,
continuamos como duas camisas no varal,
dependendo do vento
para ensaiar falsos abraços
Vasco Pereira de Oliveira
Sertãozinho - São Paulo.
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