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sábado, 22 de outubro de 2016

FOLHA AO VENTO - Crônica



Fiquei paralisada e atônita. A folha, ainda verdinha de promessas despencou assim, de súbito e misteriosamente, como uma folha seca que desaba da árvore quando chega a sua hora de partir.  Majestosa deslizando pelo ar, sem pressa, levada ao sabor do vento, pra cá e para lá, flutuando num ritual célebre de adeus. De adeus e infindo amor, por todo o tempo que viveram juntas: Ela e a Amendoeira. Ao cair passou pela amiga bromélia, deu três rodopiadas saldando-a pela última vez, e ficou presa, por apenas... cinco..... longos segundos... no pé de camarão. Olhou para trás, suspirou, pousou e regressou ao pó.
Assim foi a foto...  A fotografia do grupinho de amigas do Natal anterior. Sarah tinha então onze anos. Todas vestidas de Papai Noel, alegres, bico pintado, celebrando o Nascimento do Menino Jesus na maior algazarra. Foto colorida de vermelho intenso, sorrisos fartos e promissores. Gargalhadas soltas tilintando no ar.  Como é que aquele retrato foi parar ali naquela revista em quadrinhos do Cebolinha? Resposta óbvia: a revistinha antes de ser minha foi dela.
Minha filha se foi em setembro e a dor é muito recente. Não me acostumei com a sua não presença. O coração está em frangalhos.  Pra  tudo o que olho, todos os meus pensamentos, são sempre dela: Sarah.  A ferida está exposta e a fotografia que caiu aos meus pés parece vinagre esbraseando tudo. E justo hoje, na Noite de Natal, apenas três meses depois... Precisamente no momento que meus lábios teciam uma oração por essa morte tão virulenta de uma bailarina que não aconteceu... A lembrança aparece assim tão suavemente à procura do meu colo? Mistério, saudade e desgosto no mesmo cálice.  Não deu para segurar, fiquei entalada. Rios corriam por minha face e num segundo me vi lá, no fatídico Dia do Enterro, na reportagem que saiu no jornal. Segurei as pontas.
Mas voltando a foto, ela caiu assim inusitadamente no meu regaço, no instante que pensava na minha doce menina. No crucial instante que refletia que ela também teve o seu calvário, e que igual a Jesus teve uma morte de cruz. Vi num relance o seu sorriso na foto, que depois do aconchego do meu colo, escorregou para o chão, frio e impessoal. Imperiosamente fui à busca daquele momento, não queria que ele escapasse de mim, precisava da dançarina viva de novo, nem que fosse apenas por ver e fingir que nada tinha acontecido. Uma pollyanna velha brincando do Jogo do Contente. Tão linda era a minha criança. Tão cheia de vida. Mas reparando melhor na foto, agora, ela tinha um olhar de despedida, de quem sabia que não ia ter tempo de realizar tudo que tinha planejado. Muito menos um sonho que tivesse sapatilhas cor-de-rosa, sua cor preferida.
Só posso crer, cada dia mais, que Deus existe, sim senhor, e que por um breve momento Ele abriu as portas do céu e permitiu que  uma criança viesse à terra naquela folha que caiu, ou melhor dizendo, naquela foto. Teve dó de mim o Todo Poderoso e consentiu que a garotinha que tinha virado anjo, descesse por um instante naquela imagem. Descesse só para dizer que também sentia saudades, que lamentava a minha dor, tanto quanto eu pranteava a lembrança dela. Aos poucos fui serenando, o bolo na garganta foi aliviando, as lágrimas secaram e senti uma paz tão grande invadir o meu ser, como se a pequena mãozinha dela estivesse pousada sobre minha. Vocês podem pensar que é loucura, mas ouvi nitidamente a sua voz tilintando:
- Sossega, mãezinha, estou bem. Acalma seu coração. Vai chegar o dia que estaremos juntas novamente e desta vez para sempre. Preciso ir agora. Sou feliz. Deus faz tudo perfeito. Acredite e tenha fé.  Te amo. Feliz Natal!
Escutei o som de sapatilhas rodopiarem no céu e depois silêncio. Igual à folha que caiu se despedindo de seus afetos, pude sentir seu amor me tomar por inteiro, por apenas alguns fugitivos segundos, me envolvendo num abraço atemporal. Depois, o bater do relógio anunciando a meia-noite e os fogos ribombando loucamente no céu, feito um louco caleidoscópio.

Georgete Reis

(Participação no Concurso da
Academia do Vale do Taquari / Rio Grande do Sul
Ano de 2015)

* Em homenagem póstuma a minha querida sobrinha SARAH BRUNO REIS, que faleceu tragicamente aos 12 anos de idade, alguns meses depois da foto postada no artigo.)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

SEXO E ESCOLA

     

  Os filhos sempre esperam que as pessoas responsáveis por sua educação, sejam um "porto-seguro" para os questionamentos que a adolescência, período tão conturbado, implica na construção de suas identidades. Um dos assuntos mais polêmicos dentro desse universo é o sexo. O que esperar quando os dois referencias mais significativos, a família e a escola tratam desse assunto com irresponsabilidade e sem delimitação de limites?
     A família é o referencial para que a criança enfrente o mundo com suas complexidades de forma saudável, orientando-a, para que possa se desenvolver com segurança. Quando isso não acontece o resultado pode ser deplorável, estimulando padrões comportamentais indesejados. Um bom exemplo é a gravidez. Dados da Organização Mundial de Saúde (OSM) apontam que a gestação na adolescência se transformou em um problema social. O interessante foi perceber que em 70% dos casos estudados, a mãe da jovem também foi mãe na sua adolescência. Ou seja, o referencial serve de exemplo desviado e o modelo comportamental se repete, já que os filhos se espelham nos pais.
     Em contrapartida, a escola tem o dever de agir conjuntamente com os pais e os alunos para dialogar a sexualidade com muita cautela e maturidade. Se um colégio promove em seu recinto material de cunho pornográfico não estaria incentivando a promiscuidade? Segundo Domingues (1998 apud SANTOS E NOGUEIRA, 2009, p.55), "vivenciar situações de perigo não é só um grande desafio, mas pode ser o determinante da condição de adolescente (...).
     Enfim, a sexualidade no ambiente familiar e escolar deve ser abordada de forma neutra e sensata, para que não desperte nos jovens desvios psicológicos graves. Por isso, ambas as instituições devem estar bem estruturadas para uma adequada educação sexual.

Georgete Reis

quarta-feira, 29 de julho de 2015

CARA E COROA - Crônica




- E aí, coroa? Dez! É Dez pra nóis.  Bom dia, meu amor?

- Bom dia, meu filho, que deus te abençoe. Tudo bem em casa? Tá sozinho?

- Tudo na paz, mãezinha linda. Tudo em cima e a casa tá de boa. Tudo na ordem. PÔ... mãe, tô morrendo de saudades. Quanto tempo essa viagem vai rolar?

- O tempo necessário, Adolfo.O tempo que for preciso. E aí, meu filho, recebeu o pagamento? Pagou as contas direitinho? Este é o primeiro mês que estou desempregada. Você falou para eu ficar tranqüila que ia me ajudar. Nunca precisei.  Durante 10 anos de separação.  Lembra da sua  promessa?  Conto contigo, meu filho. Você pagou as contas?

- Fica na boa, mãezona. Sou o cara.Tá tudo controlado.  Já é. Já é, minha flor. Tudo certo. Já tou com a grana. Onde você está? Quando você volta, amor da minha vida?

- Estou em algum lugar, meu filho, e volto quando for à hora. A hora de você se transformar num homem de bem. Responsável e sincero.

- Mãe? Mãe? Shiiiiii... shiiiiii. E. A ligação tá caindo. Alô, mãe? Shiiiii...shiiiiii.

- Alô, meu filho, sou eu de novo.

- Cumu? Fala aí, mané. Tem balada hoje?

- Que modos são esses,  Carlos Adolfo? Olha como você fala com sua mãe?

- Pô mmãe, foi mal. Pensei que era uma gata? E aí,fala aí, minha gata principal, minha princesinha do lar.

- Meu filho, você pagou as contas do mês?

- Mãe? Tá bipando, mãe. Tá bipando. Ui!  A outra linha. Já ligo pra você, doçura. Já, já. Um segundinho.

- Uffa! CARLOS ADOLFO? Atende esse celular, garoto. Alô, Carlinhos? Anda menino.  Você pagou as contas de casa? Tô ficando preocupada. Atende esse telefone.  Droga!

- O número para o qual você ligou, encontra-se desligado ou fora da área de cobertura, após o sinal, deixe seu recado na Caixa Postal de...

- Eu vou matar esse garoto? ADOLFO? Atende logo esta m... – disse ela fora de si - Você vai escutar quando eu chegar em casa, hein? Atende essa M...!

- Tum! Tum! Tum!


Georgete Reis

domingo, 19 de julho de 2015

POBRES VELHINHOS - Crônica

    

      Não faz tanto tempo assim que a Segunda Guerra Mundial assolava o mundo e muita gente morria por causa da sede de poder e da intransigência do preconceito nazista. Sentimentos que não foram exterminados juntos com os sete milhões de judeus, apesar da tentativa ignóbil de Hitler.  Pessoas iguais a você e eu eram queimadas em piras monumentais.Crianças e idosos eram levados às câmaras de gás ou jogados em campos de extermínios, sendo condenados a trabalhar até a exaustão e em condições sobre-humanas. Sempre que termino de ler um livro relacionado ao tema, não consigo evitar a indignação que toma conta de todo o meu ser e sinto empatia imediata pelos que sobreviveram a esse período de horror.

      Não faz tanto tempo assim, foi há apenas sessenta e nove anos atrás, ainda tem sobreviventes do holocausto dispostos a contar a sua experiência, na maioria das vezes, traumática. Poucos escaparam ilesos. Crianças desconhecidas que hoje são velhinhos de cabeças brancas, que ainda acordam de madrugada ouvindo o ribombar dos canhões e das bombas destruindo a sua cidade,acabando de vez com suas esperanças. Essas pobres almas acordam assustadas, trêmulas e suadas, se sentem novamente crianças e se vêem novamente órfãos, já que muitas deles perderam além da dignidade, todos os seus amores na guerra. 

    O pesadelo traz memórias de viagens insólitas em trens de cargas, cheiro forte de urina e excrementos. Gente amontoada feito gado. Ratos e insetos rastejantes no chão, infestação de piolhos,sarna e icterícia. O frio congelava a alma e a comida, geralmente podre, nunca era o suficiente. Acordam, sentem fome de amor, e choram. Difícil esquecer tantas atrocidades.

      Que fique aqui o apelo dos meus velhinhos-crianças, não faz tanto tempo assim, é preciso nos mantermos vigilantes. Primeiro foram os índios, depois os negros, depois os judeus. Infelizmente, sempre tem alguém que é a bola da vez.

Georgete Reis

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A LEGIÃO - Crônica




     Ao contrário do que se possa esperar, o meu primeiro beijo foi um verdadeiro fiasco.        Nada de sininhos tocando e nem estrelas girando ao redor da minha imaculada e pueril cabecinha. Nadica de nada, a não ser uma dolorosa-assombrosa-desilusão. Não dá para contemporizar, desculpem-me, a prejudicada fui eu. Traumatizei.  Fazer o quê?


     Beijo para mim vinha acompanhado de pedido de casamento e podia durar uma noite inteira. Tinha que ter lua cheia, sim, enfeitando o céu. Olho no olho, mãos suando e coração acelerado querendo saltar do peito pra nunca mais voltar. Beijo para mim era agonia doce que curava uma vida toda de maus tratos. Beijo bem dado podia até engravidar. Sério! Era redenção e suicídio.

     Eu tinha essa visão sobrenatural do amor que só acontece mesmo (à primeira vez) em filmes hollywoodianos. Mas preciso ser honesta com vocês, não dá para culpar o mancebo-beijador, por mais que eu quisesse jogar a culpa desse embuste em alguém. Responsabilizar a lua pelos meus sonhos desfeitos, é loucura também. Eu? Sou inocente, juro! O culpado foram eles: a legião. O culpado foram aqueles tolos livros de amor que li.

Georgete Reis

terça-feira, 23 de junho de 2015

FLASH BACK - Crônica

Minha Mãe Querida
Jucy Reis da Silva

Assim que me vi lá, enfim, parecia que toda aquela amargura fazia sentido. O amarelo estrondoso queimando a vista. De doer. Os pés craquelando uma canção antiga. A oração de menina ecoando nos ouvidos, trazendo cheiro de incenso pro ar, trazendo sonhos cor-de-rosa perdidos na bruma da lida. Enfim... Tudo pululava de vida. A esperança renascia, ardendo no peito, apaziguando as doresde toda a minha romaria. O marrom que o outono deixara, se quebrava e reclamava atenção sob os meus pés.Crach! Crack!  Um cheiro adocicado no ar, e eu lá, só como aquele pévelho e frondoso de damas da noite. Prefiro as brancas. Elas lembram pombas pousando suavemente nas mãos deDeus.
Num átimo de segundo, tele transportei, em outras noites que o perfume perfumou. Algumas perdidas no véu da infância. O bairro de subúrbio, as pombas, as amendoeiras serenas de guarda nas vielas. Casais de namorados. Jovens! Tolos! A casa da mamãe. A janela do quarto e as leituras a luz do sol e da lua. Proibidas e interrompidas com um doce ralhão.

- Isso é coisa que se faça! Vão dormir, meninas. Vão estragar os olhos lendo assim. Já pra cama!

Mamãe já está morta a mais de dez anos, tanto coisa mudou...

Olhando todo aquela imensidão azul, sentindo a caricia suave do vento, o sol amarelando minhas dores e a esperança de novo queimando o peito. De repente, junto com as folhas que dançavam em redemoinhos felizes, saudando um novo dia, com todo aquele amor celestial espalhado no ar. Azul. Calor forte. Quente. Gostoso. De repente, esqueci o que ia dizer. Nada mais importava. Eu podia sentir aquele fogo queimando a alma e o amor de Deus invadindo meu ser. Um momento feliz. Aquele caminho ensolarado da rua da minha infância, o jardim da rua da esquina, quente, me levou...me perdeu e me achou. Tudo ao mesmo tempo.
Por um momento, em pensamentos, voltei pra casa no cheiro suave daquela tarde quente de verão. Cerrei os olhos... e ELA estava ali ao meu lado, segurando gentilmente a minha mão. Um outro caminho parecido com esse, descortinou-se na memória, lentamente e prazerosamente me vi de volta novamente, de pé, junto ao portão verde. Risos. Correrias. Ralhas e zangas. Sorrisos. Mais sorrisos. O cheiro gostoso de feijão cozinhando no ar, os risos alegres dos meus irmãos correndo pela casa, o papagaio da vizinha.  A saudade esquentando o peito e o amor tomando o meu ser. A música ao fundo, um pequeno flash back:

“ Nessa rua, nessa rua, tem um bosque, que se chama, que se chama solidão.
  Dentro dele, dentro dele mora um anjo que roubou, que roubou meu coração...”



Georgete Reis

segunda-feira, 22 de junho de 2015

TIRO AO ÀLVARO - Prosa



De tanto levar frechada do teu olhar.
Meu peito até parece sabe o quê?
“Táuba” de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar.
“Táuba” de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar.

Teu olhar mata mais que bala de carabina,
Que veneno estricnina,que peixeira de baiano...
Teu olhar mata mais que atropelamento de "automóver"
Mata mais que bala de "revórver".

Adoniran Barbosa

        Antes  de qualquer coisa, é preciso entender que escrita e oralidade são duas coisas que se completam, mas possuem papéis diferentes. A escrita tem o dever de seguir as normas da gramática em determinados contextos, enquanto a oralidade é livre, já que a língua é viva. Sim, ela é volúvel no bom sentido da palavra, já que ela se adapta a vários contextos de comunicação. Outra característica da linguagem é que ela sensível ao extremo e como a própria sociedade sofre mutações com o passar dos séculos. Transformações sociais, regionais, de gênero, grau de formalidade ou informalidade da circunstância vivenciada, etc.
         O principal objetivo da língua é criar uma identidade social e promover a integração social entre os interlocutores envolvidos no diálogo. Levando em conta esses aspectos fundamentais, a letra da música “Tiro ao Álvaro”, do compositor e cantor Adoniran Barbosa, não pode ser levada em conta como uma produção de texto ineficiente e com erros gramaticais, já que a Variação Linguística é um fenômeno que acontece em todas as línguas e não só no Português. É um fenômeno natural em todo o mundo. Os ingleses, os italianos, os franceses, todas as nações sentem o efeito dessa magia. E isso não é ruim, ao contrário, é magnífico, porque tem a ver com pluralidade cultural e olhares diversificados.                  

     “É através da linguagem que uma sociedade se comunica e retrata o conhecimento e entendimento de si própria e do mundo que a cerca. É na linguagem que se refletem a identificação e a diferenciação de cada comunidade e também a inserção do indivíduo em diferentes agrupamentos, estratos sociais, faixas etárias, gêneros, graus de escolaridade. “ (LEITE, 2002) 

        Adoniran Barbosa poderia ter escrito as suas canções e ter contratado um revisor para corrigi-las em busca de uma linguagem padrão formalizada.  Até mesmo porque, ele foi alvo inúmeras vezes de preconceito linguístico e grafocêntrico por cantar e escrever como falava, mas isso não honraria suas origens humildes ou espelharia a sua época. As músicas do cantor retratavam o cotidiano dos paulistas e dos imigrantes italianos de baixa renda em São Paulo. O mal que acometia o compositor tinha nome: Variação Social. Ele sofria e promovia a diversidade dos falares e sua principal função era representar a comunidade através das suas canções. O mestre do samba reproduzia o que vivenciava, sentia e via na Cidade da Garoa. Ou seja, ao som inesquecível de suas melodias construía sua identidade ao mesmo tempo em que representava sua classe social.

       “Não é fácil escrever errado como eu escrevo, pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas não diz nada...” (MUGNAINI, 2002: 9)

      Enfim, o que estudos nos mostram é que o compositor sabia muito bem da importância que a repercussão de suas músicas teria na Sociedade Brasileira, mas o que ele almejava era atingir o princípio fundamental da comunicação: ser compreendido com empatia. Falar de igual para igual. Falar do povo e para o povo brasileiro, e o resultado, não se contesta. Foi magistral.

Georgete Reis

RUMO AO INFINITO



        Pareço um desconexo boneco de marionete. Quem dita à direção que devo seguir são vocês. Estou debilitado, fragilizado e por detrás desta capa de todo poderoso, sou extremamente dócil e carente de atenção. Um cordeirinho. Mas por favor, não esqueçam que ainda tenho vontade própria, por isso, preciso ir à busca do sol quando o coração pede. Não amarrem minhas pernas, não me castrem, pois tenho necessidade de correr e embora minha mente seja cativa de uma doença, desgraçada moléstia, o espírito tem asas e é livre e corre como se fosse decolar. Às vezes fico tão leve que acredito piamente que posso voar. Quem sabe eu consiga um dia os meus sonhos alcançar?
         Tem momentos que me encontro tão mal, que ao abrir os olhos, só consigo ver o céu sombrio do quarto onde moro. Nesses dias me deparo com a morte. Nada em mim tem vida, nada se move. Meus pensamentos são confusos, sem racionalidade, só emoção. Emoção da doença, esse fogo ruim que me queima impiedosamente. Braços, pernas e tronco se amotinam e a rebelião se instala. É guerra! Já não obedeço aos meus membros, coisas minhas que são, se amotinam, há outro capitão no comando e sou apenas um figurante, o vilão, vivendo uma vida de ficção.
         Estou tão consumido por essa enfermidade que nem meus olhos tem vida, nem mesmo eles se expressam, já que vivem perdidos na Grande Escuridão. E para quê? Para procurar e nunca encontrar? Para andar nos corredores vazios da minha alma?  Sinto passos, escuto vozes e não compreendo. Às vezes são amigos, às vezes meus filhos, mas sinceramente não me importo. Não dou a mínima se é Maria, Artur, Carlos ou alguém de outra dimensão tomando meu corpo sem aviso, sem boas intenções, querendo armar confusões e me afastar mais ainda de mim mesmo e da minha missão. Esse ser obsequiador que vive grudado em mim, impede de me despir deste véu ingrato e incompreendido que é a loucura, me levando mais longe ainda do amor. Do amor que sinto e não consigo manifestar e do sublime amor universal que preciso tanto para me regenerar. É... É verdade, escuto vozes. Vozes do além, mas às vezes não tem ninguém. Nem mesmo eu. Somente meu corpo e os olhos vidrados - ai que dor - essa grande casca oca e um tanto enorme de solidão. Tem culpa, arrependimento, remorso. Meu ser clama por atenção, só um pouquinho de amor e do verdadeiro perdão que acolhe sem distinção.
          Escuto as batidas do meu coração. Tenho tanto tempo para pensar. Há marcas tão profundas que fica difícil de sonhar. Sabe, na estrada que percorro o que não me falta é tempo para refletir, mas este vazio louco que é a minha vida não me deixa prosseguir rumo ao céu, de encontro à luz, cair em braços que preciso me redimir. Ai... Meu deus... É tudo tão difícil quando vivemos no umbral, submergidos.
          Pareço um cão bem adestrado. Você me diz senta e eu sento. Você ordena que eu levante e eu pulo da cama. Você me diz deita e eu deito e de vez em quando até rolo e abano o rabinho. Já sei de todas as suas regras, meus horários de alimentação são rigidamente prescritos. Ninguém pergunta se desejo fazer isto ou aquilo. Tudo está sempre muito organizadamente controlado dentro da sua razão. Entendo e respeito suas leis. A parte boa em mim sabe que é para o meu bem estar, mas se em algumas situações eu me rebelo e GRITO e choro e QUEBRO objetos e BATO portas e até te agrido, desculpe-me, sinceramente, não foi de propósito. Entenda de uma vez por toda, não sou eu que me controlo. Infelizmente não posso prometer ter sempre as reações que você deseja e espera que eu tenha. Sabe, é este mal que me aflige. A loucura, ô Coisa ruim.
         Sei que é difícil de entender a loucura. A maioria das pessoas me considera descartável e muitas das vezes, sou mesmo insignificante diante do mundo. Se até eu me considero pequeno, ignóbil, quem dirá os outros ditos “normais”? Vivemos trancados em celas ou vagamos perdidos em ruas com nomes de consolação. Acredite, é uma existência triste, sem luz, sem porto para ancorar, sem amores para recordar. Apenas este céu estrelado que traz uma sensação de dor, como uma flecha certeira gravada funda no coração. Mas nada pode mudar a minha essência de SER de LUZ. Nem o que eu penso de mim e nem o que você pensa de mim. Sou um ser humano criado à imagem de DEUS e com um propósito designado por ELE, por mais que pareça a todos uma maldição. Existe um universo dentro de mim querendo se expandir. Rumo ao horizonte, rumo ao céu, rumo, enfim, a vida que Deus quer para mim.

Georgete Reis

O SALVADOR DA PÁTRIA - Crônica





     As pessoas se reúnem em volta da mesa no Natal. Normalmente. Não é o caso de Rita e sua pequena família: ela, o marido, o cachorro e a lembrança do gato falecido. Eles se reúnem em volta de um piano velho, meio que decrépito. Sabe como é... Em casa de pobre tem coisas que ninguém imagina. Coisas do arco da velha.  Quem diria...  O instrumento que antes tão desprezado fora, de repente, ocupa lugar de destaque em um momento tão sagrado: o Nascimento do Menino Jesus. Nada como um dia atrás do outro. 
    A moça, coitada, mora de favor em uma casa que pertence as suas tias. Coisa de herança. Junto com a casa veio o piano. Arre! Fizeram de tudo para trucidar o coitado, mas ele permaneceu ali, forte e impávido. Sem arredar um pé que seja. Também, pudera, para arrastar o danado era preciso no mínimo de quatro rapagões bem sarados. O bicho pesava uns 200 kg ou mais. Coisa antiga. Das boas. Assim o piano foi ficando, a contragosto da dona da casa, já que não fora vencido.  
     - Um dia ainda hei de vencer esse estropício. Vocês vão ver. Vou jogar ele fora sem dó e nem piedade. Não tem serventia nenhuma esse traste. – Pensava ela agoniada com aquela presença constante em seus pesadelos.
     A mulher toda vez que olhava para aquele trambolho ficava amuada. A joça só servia para escorar portas retratos, já que estava em estado lastimável. Quebrado, as cordas desafinadas, teclas soltas e descascadas, tinta gasta, sem banco. Solitário e esquecido. O sonho de Maria Rita era dar um fim no dito cujo, mas como a grana estava curta para o frete, o piano ia ficando, largado a um canto, desolado. Vivia das lembranças de tempos melhores quando era o centro de ocasiões memoráveis.
     Aí que chegou o Natal. Todo mundo atarefado fazendo “os comes e bebes” pra festa. Rabanada, uma carne assada de segunda, farofa e outras coisitas mais. A anfitriã forra a mesa com uma toalha linda, branca, com desenhos de guirlandas douradas nas pontas que ganhara de presente de sua vizinha. Não sabe que jeito deu até hoje por mais que se ponha a matutar, mas o fato é que o braço dela esbarrou na mesa de vidro que foi ao chão, estilhaçando-se toda em mil pedaços.  Foi-se a mesa, ficou o piano. O bendito. Salvador da pátria, ou melhor dizendo, do Natal.
     Sem opção e muito desesperada, Rita olha para todos os lados procurando uma solução, meio que gelada. Os convidados não tardavam. E agora? Como ia servir a comida? Varre a sala em um piscar de olhos, analisando e fazendo cálculos e abruptamente, dá de cara com o estrupício, chega até a arrepiar, dá um frio na espinha e ela dá um grito:

      - O piano, não!

Georgete Reis

LAÇOS DE AFETO - Artigo

"...Pode ser que um dia não mais existamos... 
Mas, se ainda sobrar amizade, 
Nasceremos de novo, um para o outro. 
Pode ser que um dia tudo acabe... 
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente, 
Cada vez de forma diferente. 
Sendo único e inesquecível cada momento 
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre. 
Há duas formas para viver a sua vida: 
Uma é acreditar que não existe milagre. 
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre."


Albert Einstein






     Tenho percebido que o ser humano (de modo geral) anda bastante receoso no que diz respeito a construir e investir em novos relacionamentos: seja no campo afetivo, profissional ou interpessoal. É óbvio que essa desconfiança atravanca qualquer possibilidade de um futuro promissor, porque para qualquer sonho acontecer, é preciso em primeira instância acreditar que vai dar certo. O pensamento otimista é o que impulsiona o homem a ir além das suas limitações e alcançar vitórias, muitas das vezes consideradas impossíveis, verdadeiros milagres.

    Graças a deus que não perdi a fé na vida, mas confesso que percebo, nitidamente, essa corrente de incredulidade se espalhar, contaminando algumas pessoas que fazem parte do meu círculo vital. O que é uma pena. Quando pergunto pra esse pequeno pelotão de desafortunados o que se passa, recebo respostas do arco da velha. Tipo assim: Amigos? Hum... Só os meus dentes. Se amigo fosse bom, a gente não tinha família. Amigo bom mesmo é muito dinheiro no bolso. Como assim? Será que só eu e o Vinícius tivemos amigos leais e sinceros? Ah, fala sério, né!
    Tem gente bacana que está empoleirada em gente tacanha (mas previsível e chata) só por medo de se apaixonar por um cafajeste. Tem gente que nem namora mais porque sofreu uma decepção no passado. Hello? Acorda, isso acontece com todo mundo. Não se faça de vítima. As dores e os desenganos são uma parte essencial da existência porque só assim evoluímos e alcançamos o melhor de nós. Viver com medo é viver pela metade. É preciso entender que a vida é complexa mesmo e que nada garante a felicidade. Nada garante nada, entenda isso de uma vez. Viver é montanha russa o tempo todo. É arriscar a se perder e acabar se encontrando em outros olhares.
    A única forma de se ter resultados eficientes com percentuais elevados, na procura do outro, é arriscar-se. Aqui o sucesso se resume em quantidade. Quanto mais você arriscar, mais chances terá de acertar. Com tantas estrelas no céu, porque algumas não podem brilhar só pra você? Tenha fé. É essencial. Se envolva!
   Eu sou ousada mesmo. Jogo todas as fichas e o tempo todo interajo com as pessoas e o mundo ao meu redor. Vivo conectada na esperança e na paciência, porque para construir relações saudáveis e duradouras, precisa-se de tempo. É importante entender, que geralmente, somos mais do que aparentamos no começo. Só a convivência e a confiança vai permitir que cheguemos ao conhecimento profundo do outro.  
   O respeito às diferenças também é muito importante. Não sei por que temos a mania horrorosa de acreditar que para vivermos com outra pessoa, precisamos transforma-lá no que somos. Um paradoxo, eu sei, porque amamos o outro justamente pelas suas particularidades e depois... Até mesmo porque, convenha, ninguém muda ninguém. Isso é fato.
   Para construir laços amorosos, verdadeiros e profundos, é preciso amar. Amar o ser humano por si mesmo, amar o próximo e entender que fazemos parte de um intricado quebra-cabeça em que todas as peças são diferentes e insubstituíveis. Que é bem melhor quando juntamos a nossa força, porque quando isso acontece, somos capazes de relacionamentos incríveis.   

 Questão de fé. Acredite! Deu certo comigo.


Georgete Reis

AOS SOLTEIROS DE PLANTÃO - Prosa



     O fato é que toda mulher sonha em encontrar o grande amor da sua vida. Tá no sangue. Aquele homem que vai lhe acompanhar até o último suspirar, segurando a sua mão e sussurrando - Te amo, querida - Presente na doença e na tristeza.  Sim, sou ré confessa, desejo encontrar um cara que valorize os meus sentimentos, respeite a minha profissão, agregue os amigos, e, sobretudo, goste de viver em família. Isso não é pecado. De onde saiu a ideia de que quero um homem perfeito? Além do mais, se ele existisse seria insuportável como tudo que beira ao fanatismo. Aos solteiros de plantão, AVISO, não preciso de mais uma ilusão. Não estou atrás de uma carinha bonita, nem de corpos suados e sarados, fica aqui a dica.
     Quero a volta do amor romântico, passear de mãos dadas, ir ao cinema, beijos roubados no portão, quero que peçam a minha mão, por que não? Sou careta e daí? Estou farta dos tipos garanhões, que no terceiro encontro, já vem com o papo esdrúxulo da amizade colorida. Os tais que gostam de banalizar a relação implantando o sistema do topa tudo.  Os falsos sinceros, que com essa conversinha pra boi dormir, querem roubar a dignidade e anseios amorosos das mulheres. Aos solteiros de plantão, AVISO, não preciso de homens babacas ou superficiais. Se vocês não querem, tem quem queira, como diz o ditado: “ a fila anda, meu bem.”
     Porque eu sei muito bem o quero. Quero um homem que vou amar por toda a minha vida. Não porque ele é bem sucedido financeiramente ou tem a harley-davidson mais transada do pedaço ou uma casa de praia bem cotada em Búzios ou tem um desempenho sexual mirabolante. Não por isso. Não porque ele é rico e acredita que pode comprar tudo, e de vez em quando, me leva pra jantar nos melhores restaurantes, e depois, condescendemente, me deixa na porta de casa. Não por isso. Eu quero a lua, mesmo que seja de mentirinha, e pétalas de rosas jogadas na cama. Quero ter importância. Quero ser a mulher mais linda do mundo, mesmo sem ser.
     Porque eu sei muito bem o quero, quero alguém respeita a paz interior que conquistei tão arduamente. Alguém que me faça chorar só de alegria e incentive o meu despertar eterno pela vida. Alguém que conheça as dores que colhi pelo mundo afora, e seja paciente, despertando em mim a vontade de ficar. Esse cara precisa ter valores morais bem definidos e que eles não se percam durante a caminhada árdua da vida. Todo mundo sofre, é preciso ter coragem para reinventar a vida. Precisa ser corajoso, sim, gostar de leitura, boa música e cinema. Que não resista a uma massa, que aprecie uma feijoada e seja aficionado por chocolate. O tipo bonachão que gosta de rir baixinho e escancarado.
Aos solteiros de plantão, AVISO, não preciso de um tenor, desejo apenas alguém que arranhe duas ou três músicas no violão, e cante, sem vergonha, a nossa canção. Porque eu sei muito bem o que quero, quero alguém para amar por toda a minha vida. Pode ser feinho mesmo, como diria Adélia Prado:

“Amor feinho, uma vez encontrado, é igual à fé. Duro de forte e cheio de esperança.”.

Alguém se candidata?

Georgete Reis