Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa.
Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada – o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
Apelo é um dos contos mais conhecidos do escritor Dalton Trevisan, considerado um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos. Sua linguagem é direta e popular e ele mostra cotidianos de angústias e amarguras. O escritor nasceu em Curitiba, em 14 de junho de 1925, e é nessa cidade que ele ambienta a maioria de seus casos.
Seu livro mais famoso é o "Vampiro de Curitiba", que foi publicado em 1965, pela Editora Record. A obra é uma antologia de quinze contos que versam sobre um mundo perverso, sem esperança e sem solidariedade. Histórias irônicas que destrincham essas condições humanas.Ainda não li, pessoal, é o próximo da minha lista. Depois comento, mas vale à pena, anotar.
Abraços,
Déia Reis
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