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| Minha Mãe Querida Jucy Reis da Silva |
Assim que me
vi lá, enfim, parecia que toda aquela amargura fazia sentido. O amarelo
estrondoso queimando a vista. De doer. Os pés craquelando uma canção antiga. A
oração de menina ecoando nos ouvidos, trazendo cheiro de incenso pro ar, trazendo
sonhos cor-de-rosa perdidos na bruma da lida. Enfim... Tudo pululava de vida. A
esperança renascia, ardendo no peito, apaziguando as doresde toda a minha
romaria. O marrom que o outono deixara, se quebrava e reclamava atenção sob os
meus pés.Crach! Crack! Um cheiro
adocicado no ar, e eu lá, só como aquele pévelho e frondoso de damas da noite. Prefiro
as brancas. Elas lembram pombas pousando suavemente nas mãos deDeus.
Num átimo de
segundo, tele transportei, em outras noites que o perfume perfumou. Algumas
perdidas no véu da infância. O bairro de subúrbio, as pombas, as amendoeiras serenas
de guarda nas vielas. Casais de namorados. Jovens! Tolos! A casa da mamãe. A
janela do quarto e as leituras a luz do sol e da lua. Proibidas e interrompidas
com um doce ralhão.
- Isso é coisa
que se faça! Vão dormir, meninas. Vão estragar os olhos lendo assim. Já pra
cama!
Mamãe já está
morta a mais de dez anos, tanto coisa mudou...
Olhando todo
aquela imensidão azul, sentindo a caricia suave do vento, o sol amarelando
minhas dores e a esperança de novo queimando o peito. De repente, junto com as
folhas que dançavam em redemoinhos felizes, saudando um novo dia, com todo
aquele amor celestial espalhado no ar. Azul. Calor forte. Quente. Gostoso. De
repente, esqueci o que ia dizer. Nada mais importava. Eu podia sentir aquele
fogo queimando a alma e o amor de Deus invadindo meu ser. Um momento feliz.
Aquele caminho ensolarado da rua da minha infância, o jardim da rua da esquina,
quente, me levou...me perdeu e me achou. Tudo ao mesmo tempo.
Por um
momento, em pensamentos, voltei pra casa no cheiro suave daquela tarde quente
de verão. Cerrei os olhos... e ELA estava ali ao meu lado, segurando
gentilmente a minha mão. Um outro caminho parecido com esse, descortinou-se na
memória, lentamente e prazerosamente me vi de volta novamente, de pé, junto ao
portão verde. Risos. Correrias. Ralhas e zangas. Sorrisos. Mais sorrisos. O
cheiro gostoso de feijão cozinhando no ar, os risos alegres dos meus irmãos
correndo pela casa, o papagaio da vizinha.
A saudade esquentando o peito e o amor tomando o meu ser. A música ao
fundo, um pequeno flash back:
“ Nessa rua, nessa rua, tem um bosque, que
se chama, que se chama solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo que roubou, que roubou meu
coração...”
Georgete Reis

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