terça-feira, 23 de junho de 2015

FLASH BACK - Crônica

Minha Mãe Querida
Jucy Reis da Silva

Assim que me vi lá, enfim, parecia que toda aquela amargura fazia sentido. O amarelo estrondoso queimando a vista. De doer. Os pés craquelando uma canção antiga. A oração de menina ecoando nos ouvidos, trazendo cheiro de incenso pro ar, trazendo sonhos cor-de-rosa perdidos na bruma da lida. Enfim... Tudo pululava de vida. A esperança renascia, ardendo no peito, apaziguando as doresde toda a minha romaria. O marrom que o outono deixara, se quebrava e reclamava atenção sob os meus pés.Crach! Crack!  Um cheiro adocicado no ar, e eu lá, só como aquele pévelho e frondoso de damas da noite. Prefiro as brancas. Elas lembram pombas pousando suavemente nas mãos deDeus.
Num átimo de segundo, tele transportei, em outras noites que o perfume perfumou. Algumas perdidas no véu da infância. O bairro de subúrbio, as pombas, as amendoeiras serenas de guarda nas vielas. Casais de namorados. Jovens! Tolos! A casa da mamãe. A janela do quarto e as leituras a luz do sol e da lua. Proibidas e interrompidas com um doce ralhão.

- Isso é coisa que se faça! Vão dormir, meninas. Vão estragar os olhos lendo assim. Já pra cama!

Mamãe já está morta a mais de dez anos, tanto coisa mudou...

Olhando todo aquela imensidão azul, sentindo a caricia suave do vento, o sol amarelando minhas dores e a esperança de novo queimando o peito. De repente, junto com as folhas que dançavam em redemoinhos felizes, saudando um novo dia, com todo aquele amor celestial espalhado no ar. Azul. Calor forte. Quente. Gostoso. De repente, esqueci o que ia dizer. Nada mais importava. Eu podia sentir aquele fogo queimando a alma e o amor de Deus invadindo meu ser. Um momento feliz. Aquele caminho ensolarado da rua da minha infância, o jardim da rua da esquina, quente, me levou...me perdeu e me achou. Tudo ao mesmo tempo.
Por um momento, em pensamentos, voltei pra casa no cheiro suave daquela tarde quente de verão. Cerrei os olhos... e ELA estava ali ao meu lado, segurando gentilmente a minha mão. Um outro caminho parecido com esse, descortinou-se na memória, lentamente e prazerosamente me vi de volta novamente, de pé, junto ao portão verde. Risos. Correrias. Ralhas e zangas. Sorrisos. Mais sorrisos. O cheiro gostoso de feijão cozinhando no ar, os risos alegres dos meus irmãos correndo pela casa, o papagaio da vizinha.  A saudade esquentando o peito e o amor tomando o meu ser. A música ao fundo, um pequeno flash back:

“ Nessa rua, nessa rua, tem um bosque, que se chama, que se chama solidão.
  Dentro dele, dentro dele mora um anjo que roubou, que roubou meu coração...”



Georgete Reis

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